Domingo , 17 Novembro 2019
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Ao som dos atabaques, o terreiro Ile Aşé Kalè Bokùn, na Rua Antônio Balbino, em Plataforma, no Subúrbio Ferroviário, foi tombado pela Prefeitura nesta terça-feira (12). Fundada nos primeiros anos do século passado e referência na tradição Ijexá, a casa vincula-se à história do bairro de Plataforma, um dos mais antigos de Salvador, local de grande expressão da população afrodescendente e de concentração de casas de candomblé.  

A cerimônia de tombamento contou com a presença do vice-prefeito Bruno Reis, que também é secretário municipal de Infraestrutura e Obras Públicas, do presidente da Fundação Gregório de Mattos, Fernando Guerreiro, além de autoridades religiosas ligadas à religião de matriz africana, comunidade da região e imprensa.  

"Em 2013 a FGM criou o projeto que hoje reconhece os templos de matriz africana. Vamos avançar ainda mais e a Prefeitura  jamais irá permitir intolerância religiosa", frisou Bruno Reis. O vice-prefeito também destacou outras ações da Prefeitura para reverenciar o povo de santo, a exemplo das obras de implantação do Centro Comunitário do Terreiro de Gantois, que estão fase final. 

Bruno Reis leu, durante a solenidade, uma carta de um dos membros do terreiro Ile Aşé Kalè Bokùn destinada ao prefeito ACM Neto. No teor do texto um pedido de restauro ao muro da casa, que está danificado. De pronto, o vice-prefeito se comprometeu a realizar a obra. 

Visivelmente emocionada, a ialorixá Vânia Amaral, responsável pelo terreiro, fez questão de pontuar a importância em tombar a casa. Com a voz trêmula, ela destacou o quanto foi duro o trabalho para alcançar a conquista. "Nem sei se sou merecedora de ter sido escolhida para está aqui neste momento. O orixá nos abençoou. Só nós sabemos o quanto batalhamos para hoje estarmos aqui garantindo que esse santuário seja salvaguardado", disse ela, enquanto discretamente enxugava as lágrimas. 

História - O terreiro Ile Aşé Kalè Bokùn foi implantado pelo babalorixá Severiano Santana Porto, no Subúrbio Ferroviário, há mais de 100 anos. Após sua morte, os trabalhos da casa tiveram o comando de Claudionor dos Santos Pereira, Estelita Lima Calmon e hoje está sob a batuta da ialorixá Vânia Amaral.  

Para a responsável pelo templo na atualidade, o terreiro de destaca por ser o único de nação Ijexá da capital baiana. A ialorixá ressaltou que o espaço religioso possui rituais específicos que exaltam o poder ancestral feminino, por meio do culto Geledé. Além disso, possui importante patrimônio ambiental envolvendo fonte, centenárias árvores como a frondosa gameleira que chama a atenção no local, além de outras plantas sagradas.  

O pedido de tombamento foi oficializado junto à FGM em fevereiro de 2016 pela Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro Ameríndia (AFA). O Laudo Etnohistórico do Kalè Bokùn, fruto de rica pesquisa do professor Vilson Caetano que revela elementos importantes acerca da presença dos africanos ijexá em Salvador, embasou a solicitação de tombamento.  

Em seguida, para instrução técnica do processo com vistas a atender a regulamentação da Lei Municipal nº 8550/14, foi feito um levantamento topográfico pela Superintendência de Obras Públicas de Salvador (Sucop) e georreferenciamento do terreno pela Secretaria Municipal da Fazenda (Sefaz).  

As informações resultaram em um parecer com avaliação preliminar, encaminhado para apreciação do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, vinculado à FGM. Após aprovação do conselho, em setembro de 2018, foi aprovada a inscrição no livro de tombamento e o título ao Ile Aşé Kalè Bokùn de Patrimônio Cultural do Município de Salvador.  

Lei municipal de preservação –A Lei Municipal 8.550/2014, que institui normas de proteção e estímulo à preservação do patrimônio cultural do município, e dá outras providências, prevê o tombamento municipal de elementos culturais em Salvador, por meio do Salvador Memória Viva, programa de atividades de proteção e estímulo à preservação dos bens materiais e imateriais do município desenvolvido pela Prefeitura, através da FGM.

 

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